segunda-feira, 19 de abril de 2010

Semana do Chimarrão


(Imagem do post retirada por proteção aos direitos autorais)


Vi no noticiário hoje pela manhã cedo que dia 24, sábado agora, a gauchada está comemorando o “Dia do Chimarrão”. Ô Danieli, véia de guerra, nem dá bola para o feriado de Tirandentes, ou o Descobrimento do Brasil, só quer saber do Dia do Chimarrão. Mas gaúcho é assim mesmo, bairrista que só ele. Já vi muita gente por aqui dizer que “primeiro é gaúcho, depois é brasileiro”. Exagerado, eu sei, mas que tem uma “carrada” de gente que diz isso, isso tem.


Mas enfim, achei interessante trazer aqui para o Nossa Cozinha um pouquinho de informação sobre essa bebida para as minhas amiguinhas blogueiras. Afinal, fazer um bom chimarrão é uma arte, confesso que não consigo fazer muito bem. Além disso, é quentinho, conforta, aquece, e para nós gaúchos uma ótima maneira de fazer amizade. As pessoas por aqui tendem a levar a mateira (bolsa onde levamos o chimarrão) para todos os cantos: para a praia, para o parque, para o trabalho...já vi gente no meio de uma palestra, com um mate na mão e oferecendo a cuia para todo mundo na volta. Não muito higiênico, verdade, mas é bastante costumeiro...vai da consciência de cada um. Tomo chimarrão todos os dias com meus colegas de trabalho. É um tec tec tec de computador aqui, um chimarrãozinho aqui, mais um telefonema ali, e um chimarrão para descansar um pouco. No inverno, com uma caixinha de rapadurinha da colônia hummmmm hehehehe. E, coincidência ou não, estou tomando um agorinha mesmo, enquanto escrevo esse post.


Mas o que eu também achei interessantíssimo na matéria que assisti hoje é que o bom e velho chimarrão é também ótimo para o coração! Aham, aham, baixa os níveis de colesterol! E é diurético (bom, isso eu já sabia hihihihihi).


Existem várias formas de preparar um chimarrão. Tem gente que adiciona chás, tem gente que posiciona a erva-mate de uma forma diferente, tem gente que até se dá ao trabalho de comprar bonequinhos ou cuias personalizadas para enfeitar a cuia. A que eu tenho lá em casa, por exemplo, é revestida de couro com o símbolo do Grêmio hihihihi


Decidida a fazer um post cultural, pesquisei um pouquinho sobre a bebida. Encontrei sobre origem do chimarrão, e todo o tradicionalismo nele envolvido. Também encontrei os 10 mandamentos do chimarrão, e, como não poderia faltar, uma receita para quem quiser tentar em casa (e tiver cuia, bomba e erva à mão hehehe).


A LENDA


Pesquisas mostram que a origem do chimarrão vem dos índios Guarani, que habitavam o Rio Grande do Sul em meados de 1600, pouco antes da colonização jesuítica na região. A lenda conta que um dia, um velho índio, cansado das andanças, recusou-se a seguir adiante, preferindo ficar na tapera. A mais jovem de suas filhas, apesar do coração partido, preferiu ficar com o pai, amparando-o até que a morte o levasse. Essa atitude de amor rendeu-lhe uma recompensa. Um dia um pajé desconhecido encontrou-os e perguntou à filha Jary o que é ela queria para ser feliz. A moça nada pediu, mas o velho pai pediu “renovadas forças para poder seguir adiante e levar Jary ao encontro da tribo”.


O pajé entregou-lhe uma planta muito verde, perfumada de bondade, e o ensinou que, plantando e colhendo as folhas, secando-as ao fogo e as triturando, devia colocá-las num porongo e acrescentar água quente ou fria. ‘Sorvendo essa infusão, terás nessa nova bebida uma nova companhia saudável mesmo nas horas tristonhas da mais cruel solidão’. O ancião se recuperou, ganhou forças e viajou até o reencontro de sua tribo.


Assim nasceu e cresceu a caá-mini, que dela resultou a bebida caá-y, que os brancos mais tarde chamaram de chimarrão. A origem do nome mate vem do povo espanhol, que preferiu usar a palavra ‘mati’ (cuia), da língua quíchua, para se ajustar melhor à modalidade grave do idioma. No entanto, logo foi substituída por uma palavra guarany – caiguá – nome composto por caá (erva), i (água) e guá (recipiente).


A tradição do chimarrão remete a tradição à história da colonização espanhola. Soldados espanhóis, que aportaram em Cuba e foram ao México ‘capturar’ os conhecimentos das civilizações Maia e Azteca, em 1536 chegaram à foz do Rio Paraguay. Impressionados com a fertilidade da terra às margens do rio, fundaram a primeira cidade da América Latina: Assunción del Paraguay.


Acostumados a grandes ‘borracheras’ - porres memoráveis que muitas vezes duravam a noite toda - os desbravadores, nômades por natureza, sofriam com a ressaca. Aos poucos, foram tomando o estranho chá de ervas utilizado pelos índios Guarany e notavam que no dia seguinte ficavam melhores. Realmente, o mate amargo é um bom ativante do fígado, auxiliando a curar o mal-estar causado pela bebida.


O porongo e a bomba do chimarrão eram retirados de floresta de taquaras, às margens do rio Paraguay. Por causa da tradição, os paraguaios tomam a bebida fria e em qualquer tipo de cuia. É o chamado tererê, que pode ser ingerido com gelo e limão ou com suco de laranja e limonada no lugar da água.


No Brasil, a erva é socada; na Argentina e no Uruguai, triturada. Nos países do Prata, ela é mais forte e amarga, sendo recomendada para quem sofre de problemas no fígado.


COMO TOMAMOS O CHIMARRÃO


Uma roda de chimarrão é um momento de descontração, fazendo parte de um ritual indispensável para unir gerações. O mate pode ser tomado de três maneiras: solito (isoladamente), parceria (uma companheira ou companheiro) e em roda (em grupo).


O mate solito faz parte da cultura do homem que não precisa de estímulo maior para matear do que sua própria vontade. Pode-se dizer que é o verdadeiro mateador, ao contrário do mate de parceria, em que a pessoa espera por um ou dois companheiros. É na roda de mate, porém, que esta tradição conquistou seu apogeu, agrupando pessoas em torno de uma mesma ação: chimarrear.


Aos navegantes de primeira viagem, um aviso: nunca peça um mate, por mais vontade que tenha. Poderá sugeri-lo de forma sutil, esperando que lhe ofereçam. Há um respeito mítico nas rodas de mate.


COMO “MATEAR” - TRADICÕES


Ao adquirir uma cuia nova é preciso curtí-la por, no mínimo, três dias, ato que é conhecido como curar uma cuia. Deve-se enche-la de erva-mate pura ou misturada com cinza vegetal e água quente, mantendo o pirão sempre úmido, impregnando, assim, o gosto da erva em suas paredes. A cinza é utilizada para dar maior resistência ao porongo.


Passando o tempo, retira-se a erva-mate da cuia com uma colher para eliminar os restos de erva. Basta enxaguá-la com água quente e estará pronta para ser usada. O mate se cura cevando, ou seja, quanto mais vezes é tomado, melhores serão os mates.


A mão direita – A entrega da cuia e o recebimento do mate deve ser feito com a mão direita.


Enchendo o mate - Pega-se a cuia com a mão esquerda e o recipiente com a direita. Após, acomoda-se o recipiente e se troca a cuia de mão para matear ou oferecer o mate. seguindo-se, sempre, pelo lado direito, o lado de laçar. O sentido da volta na roda de mate deverá partir pela direita do cevador ou enchedor de mate.


A água para preparar o mate - A temperatura nunca deve estar muito quente, pois pode queimar a erva, dando um gosto desagradável ao mate e lavando-o rapidamente. O ideal é quando a água apenas chia.


Só o cevador (pessoa que prepara o chimarrão) pode mexer no mate - A menos que se obtenha licença, só o cevador deve arrumar o mate, considerando-se falta de respeito mexer sem permissão. Podemos, isto sim, ao devolver a cuia, avisá-lo do problema.


Em roda de mate - É comum, após o primeiro mate, que sempre é do iniciar a roda pelo mais velho ou por alguém a quem se queira homenagear.


O primeiro mate - Todo aquele que fecha um mate deve tomá-lo primeiro em presença do parceiro ou na roda de mate. Este fato se tornou tradicional devido a épocas em que o mate serviu de veículo para envenenamentos. Por isso, o ato do mateador tomar o primeiro indica que o mate está em condições de ser tomado. Há a lenda jesuíta, que atribuía valores afrodisíacos ao mate. Para evitar que os índios passassem a maior parte do dia mateando, tentando afastá-los do hábito, criaram o mito entre os silvícolas cristianizados que Anhangá Pitã (diabo) estava dentro do mate.


Roncar a cuia - Uma vez servido o mate, deve ser tomado todo, até esgotá-lo, fazendo roncar a cuia.


OS 10 MANDAMENTOS (ESCRITO POR UM GAÚCHO)


1. NÃO PEÇAS AÇÚCAR NO MATE


O gaúcho aprende desde piazito que e por que o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, amargo apenas. Mas, se tu és dos que vêm de outros pagos, mesmo sabendo poderás achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar neste pedaço do Brasil: pedir açúcar. Pode-se pôr na água ervas exóticas, cana, frutas, cocaína, feldspato, dólar etc, mas jamais açúcar. O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te parece amargo demais não hesites: pede uma Coca-Cola com canudinho. Tu vais te sentir bem melhor.


2. NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO É ANTI-HIGIÊNICO


Tu podes achar que é anti-higiênico pôr a boca onde todo mundo põe. Claro que é. Só que tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando do chimarrão. Repito: pede uma Coca-Cola com canudinho. O canudo é puro como água de sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa, não no canudo).


3. NÃO DIGAS QUE O MATE ESTÁ QUENTE DEMAIS


Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és uma pessoa normal, assume e não te fresqueies. Se, porém, te julgas perfeitamente igual às demais, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vais adorar o chimarrão de lá.


4. NÃO DEIXES UM MATE PELA METADE


Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Com o cachimbo da paz, cada um dá uma tragada e passa-o adiante. Já o chimarrão, não. Tu deves tomar toda a água servida, até ouvir o ronco de cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento seguinte.


5. NÃO TE ENVERGONHES DO "RONCO" NO FIM DO MATE


Se, ao acabar o mate, sem querer fizeres a bomba "roncar", não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te julgar mal-educado.


6. NÃO MEXAS NA BOMBA


A bomba do chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesma, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas, por favor, não mexas na bomba. Fale com quem lhe ofereceu o mate ou com quem lhe passou a cuia. Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.


7. NÃO ALTERES A ORDEM EM QUE O MATE É SERVIDO


Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar na roda, qualquer hora serve mas, depois de entrar, espera sempre tua vez e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do Estado.


8. NÃO "DURMAS" COM A CUIA NA MÃO


Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida. Tu mateias sem pressa, matutando, recordando... Agora, tomar chimarrão numa roda é mui diferente. Aí o fundamental não é meditar e sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão, tu falas, discutes, ri, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização. Só que esta tua participaçâo não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer da cuia que está em tua mão. Fala quanto quiseres mas não esqueças de tomar teu mate, que a moçada tá esperando.


9. NÃO CONDENES O DONO DA CASA POR TOMAR O 1º MATE


Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio o primeiro, saibas que grosso é tu. O pior mate é o primeiro e quem o toma está te prestando um favor.


10. NÃO DIGAS QUE CHIMARRÃO DÁ CÂNCER NA GARGANTA


Pode até dar. Mas não vai ser tu, que pela primeira vez pegas na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que chimarrão é cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esquece o câncer. Se não der para esquecer, faze o seguinte: pede uma Coca-Cola com canudinho, que ela... etc, etc.


MODO DE PREPARO DE UM CHIMARRÃO:


1º) Colocar a erva-mate na cuia, aproximadamente até 2/3 de sua capacidade.


2º) Tampar a boca da cuia com a mão, e virar com a boca para baixo. Fazer leves movimentos para cima e para baixo.

3º) Inclinar a cuia mais ou menos 45º e retirar a mão, fazendo com que os palitos da erva fiquem na parte inferior (cestinho da cuia), formando uma trama que facilitará a entrada de água na peneira da bomba.

4º) Na mesma posição anterior, despejar água fria ou morna (água fervente queima o mate, dando um gosto amarguento) até encima da erva, que não deverá ser molhado. Aguardar até que a água seja absorvida (2 a 3 minutos).

5º) A colocação da bomba é um momento decisivo no preparo de um bom chimarrão. Tapando o bocal com o polegar, introduza a bomba no lado cheio d'água da cuia, até o fundo do cestinho. Com movimentos de pulso, procurar a melhor posição, para que a bomba fique firme. Retirar o polegar e observe o nível da água, que deve baixar alguns milímetros. Isso prova que o chimarrão está desentupido.

6º) Com a cuia na posição vertical, colocar água quente. A temperatura ideal da água é 64 graus, obtida quando a chaleira começa a chiar.

7º) Pronto. O primeiro mate pode ser ingerido.

12 comentários:

AlziJesus disse...

Olá!
Estive te visitando. Já estou te seguindo, belo Blog. Parabéns!
Aguardo sua visita. bjs no coração.

Rosani Zelada Rios Bau disse...

Sou gaúcha tb, de Santa Maria, mas moro há muito tempo fora de lá. Não perdi o hábito do chimarrão. Tomo todos os dias de manhã e à tarde.
Adorei o post, principalmente os 10 mandamentos.
Bjs
Rosani

Magia na Cozinha disse...

Dani, como gaúcha, tb aprecio um bom chimarrão, mas não posso tomar mais do que três. Infelizmente me dá muita dor no estômago.
Eu sei preparar direitinho, mas faz milenios que não tomo.
Bjs :)

Tatiana disse...

Eu já provei chimarrão... mas é uma bebida que tem que tomar sempre p/ se acostumar com a temperatura e o sabor. Não sei dizer se gostei kkkkk....Agora na minha cidade natal (Pres. Prudente) as tradições pantaneiras são bem fortes, tomamos muito tereré. Esse sim eu amo! Acho que é a versão gelada do chimarrão. Não sei se é a mesma erva, mas é bem parecido.
Bjs

Killvyane disse...

Bah, que saudade que bateu lendo seu post! Saudade de tudo: da família, da gaúchada, do SUL lindo do meu país, da infância aprendendo a fazer e saborear um mate amargo.

Trouxe comigo para o Rio a cuia, a erva e a bomba, claro! Mas aqui é muito quente, tchê! Conto nos dedos os dias que fiz chimarrão aqui... Por isso meu deu mais saudade ainda!
Aqui faço mais tererê do que chimarrão...

Adorei seu post, Dani.
Fique com vontade agora! hahaha
Como diria uma música:

"Eu quero chima, chima-chimarrão,
Pra matar a sede e a tradição!"

Beijocas!

Trainee de Cozinheira disse...

Oi Dani, eu nunca provei o famoso chimarrão, mas minha filha que tem muitas amigas gaúchas adora. Eu tenho um pouco de resistência com bebidas amargas, prá vcs acho que já tem chimarrão na mamadeira, por isso não sentem o gosto tão amargo, mas gostei da história, e vejo que as blogueiras estão ficando cada vez mais profundas nos assuntos.
bjs
Maura

welze disse...

que aula hein? adorei. Meu bonitão é chegado num chimarrão.

Regiane disse...

Oieee Dani, Eu tenho aqui em casa, comprei a erva uma vez e fiz, não deu certo, nunca mais tentei....rs
Parabéns pelo post Adorei
Bjoo e um ótimo começo de semana Bjooo

GABY disse...

mazááá gauchada !!!
'me vim' pra são paulo e perdi o habito de tomar chima direto por q fica sem graça tomar sozinha =( tava acostumada com as mateadas com familiares e amigos, mas continuo tomando sim de vez enquando principalmente no frio começa a dar aquela agua na boca pensando num mate bem quente !

Juliana disse...

É isso aí Dani! Tri legal tua postagem divulgando nossas tradições! Tu acredita que eu acordo bem mais cedo do que preciso só pra dar tempo de tomar o mate com calma! Não saio pra trabalhar sem tomar pelo menos umas 6 cuias... Ô vício!

João Mario disse...

Que bela postagem ! Porém meu paladar não se adapta a este sabor amargo. Já até tentei...
Deixa pôr açucar, vai...

Um abraço!

Fla disse...

Menina, sabe que o chimarrão eu nunca consegui tomar, mas em Campo Grande, o que é muito famoso é o mate gelado, ou tereré. Menina do céu, a gente bebia horrores daquilo. Sinto muita vontade, porque aqui em SP não encontramos. Uma pena.
Beijos